Quando estiver numa estação de comboio, metro, paragem de autocarro ou num qualquer sítio onde haja bastantes pessoas paradas e em pé, observe-as com atenção (pode desviar o olhar se a coisa se estiver a tornar… estranha).
Repare na altura de cada ombro, sobretudo naquele que leva a mala ou a mochila. Repare se a cabeça está muito para a frente (na zona do pé que toca primeiro no chão quando anda) e se tem as pernas arqueadas como o Charlie Chaplin.
E se lhe dissermos que em boa parte desses casos, essas posturas são culpa da própria pessoa? Do seu descuido mas, também claro, desconhecimento?
Desde logo os fenómenos mais fáceis de constatar são a atrofia e o encurtamento musculares. Quando se procura explicar uma alteração da forma ou da função de um músculo, órgão, a perda ou o aperfeiçoamento de uma habilidade humana, é frequente aplicar-se a expressão anglo-saxónica “use it or lose it” – “utiliza-a ou perde-a”. A atrofia e encurtamento musculares são exemplos paradigmáticos desta máxima. A posição de sentado inclui uma flexão da anca a cerca de 90° que deixa os músculos Quadricípite e Psoas-Ilíaco numa posição muito encolhida o que, aliado às muito poucas e fracas contrações musculares, conduz à diminuição dos seus comprimentos, elasticidade, flexibilidade e massa muscular. Isto é particularmente pernicioso no (carismaticamente chamado) Psoas-Ilíaco porque possui fortes inserções na vertebras lombares.
Outras estruturas particularmente afetadas com a imobilidade e uma postura mantida ao longo do tempo são os Discos Intervertebrais. Estruturas com 70 a 90% de água na sua constituição perdem grande parte da mesma ao longo do dia e a manutenção de determinada posição por muito tempo intensifica a saída de água do disco nos locais que vão estando sobrecarregados. Somando ao encurtamento daquele tal músculo com estranho nome, temos um cocktail quase perfeito de predisposição à lesão de uma estrutura óssea, muscular, ligamentar ou nervosa na região lombar.
E digo quase porque existe um terceiro interveniente neste “trio maravilha”. É um músculo e chama-se Transverso do Abdómen. Sendo uma musculatura profunda do abdómen, não deve ser confundido com o músculo “da barriga” (Grande Reto do Abdómen) que todos gostariam de ter, mais ou menos, bem delineado qual “six pack”. O Transverso tem um papel fundamental na estabilização da coluna e do tronco em geral. Contrai (não conscientemente) uns instantes antes de qualquer movimento que façamos para manter ou aumentar ligeiramente a pressão intra-abdominal, estabilizando a coluna e está frequente afetado na sua função. Porquê?
Corpo muito tempo imóvel ou com pouco movimento. Se na maior parte do tempo o corpo estiver quieto, apoiado e estabilizado numa cadeira ou sofá, o Transverso não é solicitado para contrair dado que esse trabalho esta a ser feito pela cadeira ou sofá. E como era mesmo? Use it or lose it, não é verdade?
Outro facto importante prende-se com a respiração. A quantidade de respiração, por assim dizer. A falta de atividade, a curto e médio prazo, vai conduzir a uma diminuição dos volumes respiratórios, isto é, a quantidade de ar que se inspira e expira. Isto acontece porque, não havendo necessidade de respirar grandes quantidades de ar (ex. durante a realização de exercício físico), o pequeno e pouco movimento nas articulações costovertebrais (entre costelas e vertebras) suscita um aumento da rigidez nas mesmas acabando, a longo prazo, por diminuir a amplitude de movimento que fazem.
Também já ouviu e conhece alguém com “dor ciática”. Então levante-se. Uma das causas da mesma (apesar de, com esta origem, não ser clinicamente correto chamar dor ciática) prende-se com a irritação ou encurtamento de um músculo chamado Piramidal da Bacia. Este pequeno músculo localizado profundamente na zona glútea está atrás do nervo ciático, havendo uma pequena percentagem de pessoas nas quais o nervo atravessa mesmo o músculo. Passar muito tempo sentado é quase como que “esmagar” o Piramidal; além da posição das pernas adotada pela maioria de nós quando sentados facilitar o seu encurtamento. Isto conduz à diminuição do seu comprimento, ao inchaço pela inflamação e até ao espasmo, bloqueando o movimento do nervo e/ou comprimindo-o, produzindo-se assim a sintomatologia habitual de dor ao longo da face posterior da coxa.
É um verdadeiro manancial de problemas o que advém do estilo laboral contemporâneo (independentemente do setor – indústria, serviços, desporto, agricultura ou outro qualquer), mas também da forma como desfrutamos do nosso tempo livre. Falamos de hábitos, no fim de contas.
Os problemas aqui citados são apenas alguns e mais comuns.
Movermo-nos tem de ser o mote para o dia a dia. A par do sedentarismo e da inatividade física, as posturas mantidas e movimentos repetitivos são talvez dos maiores males dos tempos em que vivemos, no que à nossa condição física diz respeito.
Só que, saúde no futuro passa pela saúde no presente.
Outros Artigos Recentes:
-
When introducing Solid Foods isn’t going as expected.
-
Quando a Introdução Alimentar não está a correr como esperava.
-
The Sitting Society
-
Do you have lower back pain?
-
Plantar Fasciitis
-
If you are a runner, listen to your body
-
What's up with stretching?
-
How Physical Therapy Can Make You a Better Runner
-
With the (right) backpack on my back for another year